Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantastica – 2017) – Sebastián Lelio

 

Quando pensamos na representação que o cinema faz da transexualidade o que geralmente encontramos são caricaturas, muitas vezes grotescas do que é a vida de um homem ou de uma mulher transexual. Hollywood está cheio de exemplos bem ruins. E mesmo nas raras representações aceitáveis os atores escolhidos normalmente são pessoas cisgêneros. Então imagine a satisfação de ir assistir Uma Mulher Fantástica, do diretor chileno Sebastián Lelio, e encontrar Daniela Vega (em uma interpretação excelente) que é uma atriz trans, dando vida a Marina, a protagonista do longa.

Com muita sensibilidade vemos uma obra que mostra o que é ser uma mulher trans na América Latina, todas as indignidades que Marina sofre e como ela realmente é uma mulher fantástica.

Nos primeiros minutos do longa pouco sabemos da protagonista do filme. Logo no início o enredo pareve que vai focar em Orlando, seu parceiro mais velho com quem passou a morar há pouco tempo. Eles estão apaixonados e felizes juntos, o que fica visível em todas as suas ações. Só que logo após a comemoração do aniversário de Marina, Orlando acaba morrendo por conta de um aneurisma. Apesar dela ter feito de tudo para que seu companheiro ficasse bem, é tratada de maneira desagradável e desconfiada pelo médico do hospital, ao ponto da polícia ser envolvida. E Marina fez tudo certo, mas apenas pelo fato de ser trans as pessoas do hospital a viram como suspeita na morte do parceiro.

E aí começa uma jornada dolorosa. A partir do momento que Orlando morre a vida de Marina passa a ser cada dia mais difícil. A família dele a trata mal e faz com que ela passe por situações extremamente dolorosas, as quais ela supera com extrema dignidade. Nem se despedir do homem com quem dividia sua vida querem permitir. Só que nem só de pessoas ruins e preconceituosas o filme é composto. Na verdade, ao redor de Marina existem diversas pessoas maravilhosas, que a amam e a respeitam. Ela trabalha em um ambiente onde é bem tratada, sua irmã também a cerca de amor. É um microcosmo, mas mostra que não é apenas dor.

O roteiro é primoroso ao conseguir mesclar as indignidades e o amor com que a vida de Marina é permeada, as dificuldades e as superações. É um roteiro inteligente e sensível e que merece o prêmio que ganhou no Festival de Berlin. A direção é inteligente e capta a interpretação forte de Daniela Veja com competência e muito respeito. Existe uma cena no filme que é excepcional ao captar a imagem da personagem nua em um plano lateral onde não vemos seu sexo, logo mudando de plano para um close-up da área genital da atriz que está coberta por um espelho refletindo o rosto da protagonista. Porque se Marina fez ou não a cirurgia, não importa. É uma mulher, um ser humano, como eu e você. E a expressão da atriz nesse momento é muito forte, pega você com impacto. A forma como a câmera consegue pegar todas as nuances de Daniela que diz tanto sem falar uma palavra é mais um ponto positivo do filme.

O uso das cores chama atenção. É difícil não perceber uma influência do cinema de Pedro Almodóvar no uso das cores (vermelho, azul, amarelo e verde em todos os detalhes); na forma que alguns planos são feitos capturando o cenário urbano e compondo uma mensagem visual forte na sua união com a ação se desenrolando; no protagonismo feminino; na discussão de gênero. A referência está presente, mas o Lelio consegue criar uma linguagem própria e que merece ser vista e apreciada.

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