Independence Day: O Ressurgimento (2016) – Roland Emmerich


Por: Julianna Costa
O slogan diz “Nós tivemos 20 anos para nos preparar. Eles também.”
Spoiler alert: Os 20 anos de preparo não serviram para muita coisa. Nem para “nós”, nem para os aliens e muito menos para os roteiristas.
Com um roteiro frouxo que não diz exatamente para quê veio, Independence Day: Ressurgimento perde a mão entre tentativas mal lapidadas de fan service e riscos com inovações que não geram frutos.
A premissa da história é como o clichê da maioria das continuações: basicamente o mesmo enredo, com mais efeitos e exageros. Vinte anos depois do “Dia da Independência original”, nós somos apresentados ao mundo “de hoje”. Uma grande comunidade internacional de países que abandonaram os pequenos conflitos e intrigas diante da percepção de que unidos somos mais fortes e que, agora, utilizam as evoluções conquistadas através do estudo da tecnologia alienígena para melhorar a vida em nosso planeta.
Confesso que essa premissa me pareceu meio forçada, e assim que a voz narradora disse algo como “vivemos em paz absoluta” eu estava revirando os olhos… Como se adquirir novas tecnologias bélicas fosse gerar paz entre humanos. Litigiosos jurídicos por patente, formação de monopólios de exploração ou criação de organizações religiosas para cultuar os alienígenas eu aceitaria. Mas “paz absoluta” é algo que até mesmo os filmes da Disney já abandonaram.
O lado bom é que eu não precisei ficar incomodada com a falta de verossimilhança dessa evolução narrativa por muito tempo! Logo, logo, os próprios roteiristas concordaram comigo e nos apresentam um warlord africano que controla quem tem ou não acesso a única nave alienígena que pousou no planeta (e, consequentemente, a única que está inteira). Porque os Estados Unidos e outros membros do Conselho de Segurança da ONU – que fiscalizam até mesmo pesquisas nucleares – deixariam uma nave alienígena inteira sob poder de um warlord africano sem interferências. Hmhum.
Eu gostaria de dizer que acabam aí os problemas com roteiro, capazes de quebrar a imersão do espectador. Mas eu estaria mentindo.
E mentindo bastante.
Tudo na narrativa soa forçado. Desde a idade dos oficiais enviados a missões (adolescentes resgatando o mundo repetidas vezes) ao modo como os conflitos são solucionados, tudo no filme te faz acreditar piamente que, 20 anos depois, o mundo é dominado por pessoas incompetentes.
Me incomoda quando um filme coloca grandes figuras militares e de comando para tomar decisões que até você – espectador absolutamente leigo em estratégias bélicas – percebe que são estúpidas. É o primeiro sinal de um roteiro preguiçoso: vamos fazer um problema facilmente resolvível ser complicado por decisões idiotas, e então vamos lhe dar uma solução que não faça sentido, enquanto distraímos o público com um rapaz bonitinho e explosões coloridas. Eis Independence Day: Ressurgimento.
A representatividade do filme começou promissora, com uma das cenas iniciais mostrando uma interação entre duas mulheres, sendo uma delas a presidente dos EUA.
Mas depois disso, o longa apontou o bico de sua aeronave para o centro da terra e começou a queda íngreme ou, como o filme fazia questão de repetir: um mergulho controlado.
As mulheres em posição de destaque no filme são grotescamente mal aproveitadas. Mas minha decepção maior ainda foi com o jovem Dylan Hiller, que deveria ser o protagonista, mas é reduzido a um secundário com um background patético. Ele e o oficial interpretado por Liam Hemsworth poderiam ter sido fundidos em um único personagem: Hiller. Mas, o protagonismo do filme lhe é roubado e dado para um homem branco, sem que para isso haja qualquer justificativa no roteiro. A existência de Hemsworth como protagonista não engrandece a trama em nada. Pelo contrário: torna-a mais confusa e desleixada. Se ele não existisse, o roteiro seria mais condensado e, arrisco dizer, melhor.
Mas no quesito “personagens” o filme falha, falha mais uma vez e ainda consegue continuar falhando.
Tanto na reintrodução dos personagens originais quanto na apresentação dos novos, Ressurgimento é um desastre.
Primeiro, talvez porque ele considere ter sido mais marcante do que de fato foi. Muitos dos personagens originais estavam de volta nesse filme e o roteiro não obrigatoriamente levou um tempo necessário para colocar o espectador de volta do trilho. Em mais de uma reapresentação, os roteiristas consideraram que o público seria capaz de lembrar exatamente quem era o personagem (secundário) apenas pelo rosto do ator. Será que eles só lembraram que já faz 20 anos na hora de fazer o slogan?
Então, enquanto você está espremendo os olhos, encarando o ator e vasculhando na sua memória para tentar lembrar quem diabos é aquele cara, o filme passa a te apresentar os personagens novos. E esses também são muitos.
Muitos mais do que seriam necessários para uma boa história.
O roteiro acaba se perdendo na salada de múltiplos núcleos que ele mesmo criou e, quando um núcleo que você já esqueceu que existia aparece para salvar o dia, ao invés de ficar se sacodindo de empolgação na cadeira, você apenas pisca algumas vezes pensando “onde era mesmo que esses aí estavam?”
O filme tem tantos furos de roteiro que ao invés de contar quais coisas que não fizeram sentido, seria mais fácil contar quais fizeram. Não são muitas. Na verdade, no momento, eu não consigo lembrar de nenhuma.
O fan service do filme existe, mas não empolga. O timing é errado, assim como vários dos momentos de alívio cômico do filme (um oficial treinado e graduado gritando dentro de uma nave durante uma situação tensa não é o tipo de coisa que me faz rir, é o tipo de coisa que me faz dizer “sério isso?”).
Como um todo, o filme simplesmente não funciona. Eventos aleatórios conduzidos por pessoas estúpidas que sempre escolhem o indivíduo menos capacitado para realizar uma missão. Cara que estava em coma por 20 anos acabou de acordar e – mesmo que não devesse nem ser capaz de andar sem meses de fisioterapia – quer reassumir sua posição de liderança na equipe científica? Sem problemas! Cara que todo mundo acha que enlouqueceu quer pilotar a nave para salvar nossas vidas? Claro! Filha dele que não pilota há um bom tempo quer substituí-lo? Tome as chaves!
Eu fui fã de Independence Day em um dado momento da minha vida em que eu era nova demais para criticar seus “estadunidismos”, mas é um filme que tem um lugar no meu coração. Mesmo que usar um vírus de computador humano para interagir com um sistema operacional (?) alienígena me pareça uma ideia estúpida, na época a tecnologia não era tão acessível, então os roteiristas podiam se safar com absurdos assim. Hoje em dia equívocos de natureza similar são imperdoáveis.
É como se Independence Day pudesse ser um filme ridículo se visto hoje, mas foi um filme feito para ser sério e, por isso, teve seu momento sob os holofotes, enquanto seu primogênito nasceu com a intenção de ser ridículo em qualquer tempo.
Quero dizer… Você é atacado por alienígenas. Eles destroem seu sistema de comunicação. Você usa tecnologia antiga e código morse para se salvar. Você expulsa os alienígenas e começa a usa sua tecnologia… Não sei vocês, mas eu não me basearia exclusivamente nisso. É de se imaginar que os aliens conhecem SUA PRÓPRIA tecnologia e que poderiam nos deixar no escuro de novo. Seria no mínimo razoável ter um plano de contingência caso A MESMA coisa acontecesse.
Mas, aparentemente, os militares do mundo não estudaram História.
Ou talvez vinte anos apenas tenha sido tempo demais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *